Tudo o que é demais, não presta!

30-03-2017
hiper

Cresci ouvindo minha mãe dizer isso mas talvez só agora esteja refletindo sobre essa frase e o quanto há de verdade nela, principalmente falando-se em hiperconectividade, ou seja, quando nos conectamos demais. Não estamos rejeitando a conexão e muito menos o uso das ferramentas tão especiais e essenciais do nosso mundo tecnológico atual. Ao contrário, apenas falando da medida certa e seu bom uso, como ferramentas que são. O uso em excesso das ferramentas de conexão tecnológicas com o mundo externo já vem sendo tratado como transtorno, chamado nomofobia, que é a fobia causada pelo desconforto ou angústia resultante da incapacidade de comunicação através de aparelhos celulares ou computadores.

É um termo muito recente, que tem origem nos diminutivos inglês No-Mo, ou No-Mobile, que significa sem celular. O termo surgiu na Inglaterra, onde mais de 50% da população é possuidora de celulares. No Brasil, este número já ultrapassa os 72 milhões, segundo o Instituto Opus, em artigo de abril de 2016. Este transtorno surge quando alguém se sente impossibilitado de se comunicar ou se vê incontactável estando em algum lugar sem seu aparelho de celular ou computador com internet.

Ansiedade, perda de contato com pessoas próximas, sentir-se mais feliz na vida virtual que na realidade, se preocupar com as curtidas e compartilhamentos de uma foto, e deixar de aproveitar os momentos da vida para postar uma selfie são alguns dos sinais de que você está passando do limite. E como sempre, o que entra em discussão é o que nos leva a exagerar no uso das coisas que, em seu princípio útil, são criados para nos beneficiar . Conectar-se significa estar em contato, estar mais próximo ligar-se ás coisas, pessoas, assuntos, lugares que nos interessam. As ferramentas tecnológicas nos habilitam a fazer isso de maneira mais rápida e eficiente e nós somos os responsáveis por fazer bom uso delas.

Hiperconectar-se é transformar a ferramenta, o meio, no foco, no fim.  Ou seja, é desvirtualizar o bem que nos foi dado e torná-lo algo que na verdade, ao invés de nos conectar com o mundo nos desconecta de nós mesmos. Sim, pois na maior parte das vezes, ao invés de nos enriquecer com a possibilidade de estar mais perto do que nos é importante e caro, nos vemos interessados em temas, assuntos e pessoas que não nos enriquecem, que nos beneficiam e mesmo nos despertam sentimentos improdutivos.

Orar e vigiar foi a linha mestra definida por Jesus. E isso vale para os meios que usamos nos dias de hoje e que nos tomam tanto tempo e vida. Vigiar o uso e nossa dedicação a tudo isso, não nos deixar exagerar nas doses, experimentar outras formas de conexão com as pessoas que não apenas a internet e seus meios sociais, olhar a verdade para as pessoas e não apenas para suas fotos e posts. Falar e ouvir suas vozes ao invés de apenas curtir e compartilhar para indicar que estão em-linha com elas. Orar pelo que concordamos e orar mais ainda pelo que discordamos ao invés de apenas comentar, incrementando sentimentos que muitas vezes nos perturbam, inquietam e propagam o que não se deve.

Gostaria de concluir usando o desabafo da psicopedagoga Cassiana Tardivo

“Antes perdíamos filhos nos rios, nos matos, nos mares, hoje temos perdido eles dentro do quarto!
Quando brincavam nos quintais ouvíamos suas vozes, escutávamos suas fantasias e ao ouvi-los, mesmo a distância, sabíamos o que se passava em suas mentes. Quando entravam em casa não existia uma TV em cada quarto, nem dispositivos eletrônicos em suas mãos. Quero deixar bem claro que não sou contra tudo isso. Mas queridos, precisamos ser sinceros: temos perdido o equilíbrio.

Hoje não escutamos suas vozes, não ouvimos seus pensamentos e fantasias, as crianças estão ali, dentro de seus quartos, e por isso pensamos estarem em segurança. Quanta imaturidade a nossa.

Agora ficam com seus fones de ouvido, trancados em seus mundos, construindo seus saberes sem que saibamos o que é…
Alguns, perdem literalmente a vida, mas tantos outros aí, ainda vivos em corpos, mas mortos em seus relacionamentos com seus pais, fechados num mundo global de tanta informação e estímulos, de ídolos de youtube, de modismos passageiros, que em nada contribuem para formação de crianças seguras e fortes para tomarem decisões moralmente corretas e de acordo com seus valores familiares. Dentro de seus quartos perdemos os filhos pois não sabem nem mais quem são ou o que pensam suas famílias, já estão mortos de sua identidade familiar… Se tornam uma mistura de tudo aquilo pelo qual eles tem sido influenciados e país nem sempre já sabem o que seus filhos são.

Você hoje pode ler esse texto, amar, marcar os amigos. Pode enxergar nele verdades e refletir. Tudo isso será excelente. Mas como Psicopedagoga tenho visto tantas famílias doentes com filhos mortos dentro do quarto, então faço a você um convite e, por favor aceite ! Convido você a tirar seu filho do quarto, do tablet, do fone de ouvido, convido você a comprar jogos de mesa, tabuleiros e ter filhos na sala, ao seu lado por no mínimo 2 dias estabelecidos na sua semana a noite (além do sábado e domingo). E jogue, divirta-se com eles, escute as vozes, as falas, os pensamentos e tenha a grande oportunidades de tê-los vivos, “dando trabalho” e que eles aprendem a viver em família e se sintam pertencentes no lar para que não precisem se aventurar nessas brincadeiras malucas para se sentirem alguém ou terem um pouco de adrenalina que antes tinham com as brincadeiras no quintal ! “

Referência “O trevo jan/ fev. 2017 n°482”